Andava um Galo a esgravatar no chão, para achar migalhas ou bichos que comer, quando encontrou uma pérola. Exclamou:
— Ah, se te achasse um joalheiro! A mim porém de que va les? Antes uma migalha ou alguns grãos de cevada.
Dito isto, foi-se embora em busca de alimento.
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Análise psicológica
O galo avalia a pérola a partir do que conhece e do que precisa naquele momento: ele está com fome e voltado para a busca imediata de alimento. Dentro desse contexto, a pérola “não lhe serve”. Não porque ela não tenha valor, mas porque, naquela circunstância, a forma como ele enxerga o mundo não permite reconhecer isso.
Na TCC, compreendemos que não reagimos diretamente aos fatos, e sim às interpretações que fazemos deles. O galo não se pergunta se poderia haver outro significado para o que encontrou; ele simplesmente toma seu pensamento como verdade e segue adiante. Seu esquema cognitivo funciona como um filtro: tudo o que não responde à necessidade imediata é deixado de lado.
A fábula também nos ajuda a refletir sobre como nossas crenças e prioridades influenciam as escolhas que fazemos. Muitas vezes, pessoas passam por verdadeiras “pérolas” na vida (oportunidades, vínculos, experiências ou possibilidades de crescimento), mas não conseguem reconhecê-las. Isso pode acontecer quando estamos presos a formas rígidas de pensar, tentando apenas aliviar o desconforto do presente ou repetindo padrões aprendidos ao longo da nossa história emocional.
Na terapia, o olhar não é de certo ou errado, mas de curiosidade e cuidado. A pergunta que surge é: que mapa interno está guiando minhas decisões? O que talvez eu não consiga enxergar neste momento porque estou muito focado em uma única necessidade ou crença?
A TCC propõe ampliar esse olhar: flexibilizar pensamentos automáticos, explorar novas leituras da realidade e considerar que algo pode ter valor mesmo que, num primeiro momento, não pareça útil ou confortável. Muitas vezes, o sofrimento se mantém não por falta de recursos, mas pela dificuldade de reconhecê-los quando aparecem.
No fim, a fábula nos lembra que aquilo que ignoramos pode revelar muito sobre nossas crenças e pouco sobre o verdadeiro valor do que está à nossa frente. É nesse espaço de ampliação do olhar que a terapia pode oferecer apoio e cuidado.
Desejo ampliar o meu olhar sobre a vida